O higienismo já esteve por trás de algumas das maiores exclusões da história e, infelizmente, não é um conceito que ficou no século XIX.
Quando alguém fala em ‘limpar a cidade’, pode parecer inofensivo: tampas de bueiro, calçadas lavadas, praças cuidadas.
Mas a ideia de ‘higienizar’ carrega uma pergunta que nem sempre é feita: limpar o quê? E de quem?
A origem do conceito de higienismo
O higienismo surgiu entre os séculos XIX e XX, quando médicos e sanitaristas europeus começaram a combater surtos epidêmicos que devastavam cidades em rápida industrialização.
O foco era garantir saneamento, condições dignas de moradia e saúde pública para uma população operária que vivia sem estrutura nenhuma. Essa linha chegou ao Brasil na Constituição de 1934, cujo artigo 138 orientava sobre hábitos de higiene e criação de serviços sociais.
Porém, o que começou como cuidado com a saúde logo se distorceu. O conceito de “higienizar” passou a carregar um sentido oculto de “descartar”: remover da cidade o que não servia, o que incomodava, o que era pobre.
No Rio de Janeiro do início do século XX, reformas urbanas derrubaram cortiços e expulsaram os mais pobres para os morros, numa lógica que beirava a eugenia. O higienismo, que deveria cuidar das pessoas, passou a descartá-las em nome da ordem.
O higienismo hoje: quando a estética urbana fica acima as pessoas
Se o higienismo original tratava de epidemias e saneamento, sua versão contemporânea trata de “ordem pública” e “estética urbana”. Mas o mecanismo é o mesmo: remover da vista aquilo que incomoda.
Aqui é que precisamos olhar para Florianópolis.
Não precisamos voltar muito no tempo para encontrar o higienismo em ação. Basta olhar para Florianópolis nos últimos meses e anos.
O Decreto “Marmita Legal” é um claro exemplo de como ainda vemos decisões sendo tomadas de forma a “esconder” aquilo que não é bonito aos olhos dos turistas.
Durante os meses que foi implementado, o decreto restringiu a distribuição voluntária de marmitas a locais autorizados. Na prática, dificultou a chegada de comida quente a quem tem fome. O MPSC questionou a inconstitucionalidade e a Justiça Federal suspendeu o decreto temporariamente em julho de 2026.
O projeto Além dos Olhos, que distribui cerca de 250 marmitas toda semana há mais de uma década, foi diretamente impactado.
Em maio de 2025 voluntários da “Guarda voluntária” de Florianópolis foram flagrados hostilizando e ameaçando uma pessoa em situação de rua sentada em um banco público no centro.
Outras ações como fechamento do Restaurante Popular, políticas de internação forçada e “controle migratório” na rodoviária são medidas que criminalizam a pobreza e a mobilidade e precisam ser debatidas.
O que o higienismo nos ensina (e o que esquecemos)
Exemplos de como o higienismo atua nos mostram que, quando “limpar a cidade” significa remover pessoas em vez de cuidar delas, algo está profundamente errado.
O higienismo original buscava equilíbrio moral, intelectual, físico e social. Tinha as pessoas como centro.
O que podemos fazer?
Quando o Estado fecha restaurantes populares, proíbe marmitas e hostiliza quem tem fome, quem tenta preencher o vazio são ONGs, cozinhas solidárias e voluntários.
Mas nenhuma organização tem estrutura para substituir o poder público em escala. O que a gente precisa é de política pública de verdade. Eleger e cobrar quem olha para pessoas e não só espaços.
Como você pode ajudar as ações do Além dos Olhos
- Seja voluntário(a): seu tempo vale mais do que você imagina
- Faça uma doação via PIX: 37591117000105
- Outras formas de ajudar: http://projetoalemdosolhos.com.br/como-ajudar
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